Mais coados, por favorrrrr!

Mais coados, por favorrrrr!

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Em defesa do favorito do povo brasileiro

Café é CULTURA NACIONAL. E, acho eu, até deveria ser considerado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil! Além de sermos o maior produtor desta fruta, do qual aproveitamos a semente pra torrar e fazer o pó que transforma-se na bebida café, também somos um dos maiores consumidores desta iguaria!

Pudera, aqui o café está em quase todos os cantos desse país! A bebida está no café da manhã, na pausa do trabalho, no pós almoço e naquela reunião de negócios. Acompanha o encontro com amigos, a espera nas repartições, os estudos madrugada adentro e a fugidinha para fumar. Encontramos no boteco da esquina, na casa com visita, nos workshops e na copa dos escritórios. O café é nosso companheiro 365 dias do ano, aquecendo nos dias de frio e nos fazendo suar (embora também possa nos refrescar!) nos dias de calor!

E sabe o tipo de preparo que está no topo dessa nossa cultura da bebida de café? O café coado! Sim, aquele que o povo brasileiro chama muito carinhosamente de “cafezinho”, “café pequeno” ou “pretinho básico”!

Café coado com naco de queijo, uma dupla imbatível!

Cada um no seu coado

O que nós chamamos de ‘coado’ tem um nome técnico: extração por filtragem. Isso é, um elemento faz uma barreira física para que um sólido (no caso, nosso delicioso pó de café) se separe do líquido. Simples assim.

Os coados podem ser preparados em filtro de papel, de metal, de pano, ou em fibras sintéticas (poliéster e polipropileno). O filtro de metal (aço inox ou titânio) é o mais durável de todos, é importado e é uma invenção bem recente. O filtro de polipropileno foi inventado por Sidney Lenz, em Santa Catarina, e foi patenteado no ano de 2006, sendo comercializado a partir de 2009. Já o filtro de papel, a invenção da tia Amalie Melitta Bentz que completa 111 anos em 2019, só chegou em solo tupiniquim em 1968.

Mas há um equipamento bemmmm mais tradicional aqui no Brasil, conhecido em algumas regiões do país como “mariquinha¹”, “mariquita” ou “maricas”, ou mesmo “mancebo” (todos estes nomes em referência ao suporte que sustenta o filtro). O item vem com um paninho de flanela ou de tecido de algodão, também chamado de ‘saco de café’, ‘meia de café’ ou ‘saco de pano’. É um processo tão antigo que, por vezes chamamos de “coador da vovó”!

Segundo o relatório da pesquisa “Tendências de Consumo de Café”, promovida pela Associação Brasileira da Indústria do Café - ABIC, 97% do povo elegeu o coado como a extração preferida para o café! Com certeza deve ser porque é uma das formas mais simples e mais antigas aqui no Brasil. Nesse preparo há muitas memórias envolvidas, não só nossas, mas as de outras pessoas também. Já faz parte do nosso imaginário coletivo e traz consigo significados profundos, marcas de uma ancestralidade que vem de muito antes de nossas avós e avôs.

E uma das provas de que o coado é o preferido de 9½ em cada 10 pessoas, é a invenção do “preparador automático”: a cafeteira elétrica. Essa ‘robô pseudo barista’ pode utilizar ou filtro de papel, titânio, poliéster ou de polipropileno. Quando será que inventarão um filtro de pano pras cafeteiras elétricas….? #perguntopqnãosei

Uma nova onda

Mas para galera moderninha que também curte café coado, existem novas tecnologias que estão na crista da onda! Com o tantão de equipamentos de extração que surgiram (Hario, Kalita, Chemex, Kone, Clever, KOAR…), dá pra fazer muitíssimas combinações utilizando a grande variedade de cafés especiais produzidos por esse nosso país de dimensões continentais! E muitas cafeterias já estão promovendo os coados, saindo da obrigatoriedade de só servir café espresso (nós todes agradecemos!).

Por mais coados diferentões, por favor! Afinal, é impossível continuar a beber sempre o mesmo coado velho de guerra com tanta inovação surgindo por aí, né?! Tradição é legal, mas é muito bom experimentar algo diferente, desafiar nosso paladar viciado naquele mais-do-mesmo!

E se você ficou curioso pra saber os segredos de um bom coado pra dar um UP nos preparos em casa, a galera da Revista Nexo publicou um guia supimpa com dicas de algumas extrações pra você ser feliz com pouco! :)

Mas então, tá. Apesar das muitas tecnologias importadas, o café coado continua sendo muito nosso! E não se discute mais isso! #tenhodito

Partiu, café?! Xáé!


[Referências no texto]
¹
Mariquinha, maricas, mariquita, marianita: peça de três pés, onde se penduram objetos, como caldeirão ou outros itens, para serviço de cozinha. Mancebo também tem a mesma acepção, só que é estritamente de madeira. Pesquisa: Dicionário Aurélio Eletrônico.
² In: História do Café no Brasil e no Mundo, José Teixeira de Oliveira, Editora Francisco Alves, 1984.

Texto original de Moni Abreu. 
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Artigo licenciado sob a Creative Commons — Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional

Publicado em: Sex 08 Fev 2019

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Café!Café!Café!
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